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Escrito por às 18h12 [ ] [ envie esta mensagem ]
Cecília Meireles
Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...
O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...
O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.
(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)

Escrito por às 23h33 [ ] [ envie esta mensagem ]

Escrito por às 20h50 [ ] [ envie esta mensagem ]
Escrito por às 20h49 [ ] [ envie esta mensagem ]

meus sobrinhos Ivanizinha e Daniel
Escrito por às 23h29 [ ] [ envie esta mensagem ]

Escrito por às 12h58 [ ] [ envie esta mensagem ]
Conselho de Ética não admite o 'mensalão'
29 de Agosto de 2005
O presidente do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, Ricardo Izar (PTB-SP), afirmou no domingo que aposta na "derrubada da tese do mensalão" nesta segunda-feira, quando deve ser lido o relatório que pede a cassação de Roberto Jefferson (PTB-SP), o autor da denúncia. Izar admite, porém, que ainda podem surgir "provas irrefutáveis" de que existiu a mesada aos deputados.
"Pelas informações de que dispomos até agora, a tese de "mensalão" fica derrubada", afirmou Izar, que reconheceu, porém, que já há comprovação de delitos tão graves quanto a suposta mesada. "É público que houve, no mínimo, financiamento irregular de campanha." O parecer sobre Jefferson, ainda sigiloso, deve ser votado na quinta. Se aprovado, deve ir a plenário em setembro.
Defesa - A leitura do parecer fará o Conselho de Ética "descartar" o mensalão porque esse documento deve pedir a cassação de Jefferson com base na denúncia do deputado petebista. Como não houve comprovação da mesada, ele poderia perder o mandato por fazer uma acusação sem comprovação. Ao mesmo tempo os acusados ganham força em sua defesa diante do mesmo Conselho de Ética.
O deputado José Dirceu (PT-SP), por exemplo, foi acusado de ser o operador do esquema. "Como é que vão me cassar se me acusam de mensalão e não existe mensalão?", pergunta ele, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Outros deputados processados ficam na mesma situação, como o líder do PL, Sandro Mabel (GO). A oposição não gostou da posição do Conselho e já promete contestá-la.
Pode veja você que fazem estes parlamentares.
Escrito por às 12h57 [ ] [ envie esta mensagem ]
A besta
Yá parte la cavalgada, ay que haremos, ay que haremos (Pablo Neruda)
Povo americano chorai. Sois humanos e hoje é um dia de luta e dor para vós. A morte caiu dos céus sobre os vossos filhos com crueldade inaudita. A besta, numa bola de fogo, feriu vossos corações e acrescentou listras vermelhas de sangue à vossa bandeira.
A dor maltrata mas também ensina. E nesta lição terrível lembrai-vos que tivestes em duas horas o horror que Hanói viveu durante décadas, Bagdá e Belgrado viveram durante meses e que a Palestina tem vivido há muitos anos.
Perdestes milhares de vidas preciosas. Os iraquianos, iugoslavos e palestinos perderam dezenas de milhares. Os vietnamitas choram três milhões. Tivestes hoje uma pequena, e nem por isto menos cruel, amostra de como Hanói sofreu sob os bombardeios de saturação dos cowboys de Nixon. Agora sabeis como Belgrado e Bagdá se sentiram sob os bombardeios cirúrgicos do Dr. Clinton. Percebeis agora, e isto eu digo querendo vos trazer para a sensibilidade humana da dor, o que é o cotidiano palestino.
As monstruosas torres do World Trade Center, orgulho da arrogância imperial, erguiam-se em Manhattan como uma grande muralha a separar o esplendoroso primeiro mundo do terceiro. Desmoronaram em menos de uma hora. Caíram mais rápido do que o muro de Berlim. Talvez a velocidade da queda não tenha deixado clara a mensagem: americanos, não existem vários mundos. O primeiro mundo é um engodo que os plutocratas criaram. O planeta é um só, a humanidade é uma só, o amor e o ódio são humanamente unos.
O pentágono, com sua arquitetura medieval de castelo fechado em si próprio, auto-suficiente, declarando-se ao universo como centro vigilante da e contra a humanidade, tornou-se um quadrilátero. O Boeing arremessado contra a sua face norte, como um aríete, abriu-o para a realidade.
John, aproveita a brecha dolorosa. Impeça que os militares feudais a fechem novamente para lá dentro tramarem o fim da humanidade. Mary, na tua dor infinita perceba que até agora andavas em má companhia. Pague para que ela se torne uma boa, generosa, terna. Arranque-a das trevas da barbárie, do culto à crueldade, da pedagogia fascista e da conspiração contra o humano. Lembrai-vos que os maiores monstros da atualidade – Saddan Hussen, Ariel Sharon, Ossan Abin Laden, Pinochet, Fujimori – são crias da CIA, a companhia que vocês sustentam com os impostos que pagam.
Homens bestializados pilotaram os aviões que mataram milhares dos vossos entes queridos. Eles são a besta. Mas não só eles. E os Johns que bombardearam os hospitais de Belgrado, não são? E os MacDonalds que estraçalharam as crianças das creches de Bagdá, não são? E os Pauls que aniquilaram Mi Lai, Hanói, não são?
John e Mary, não sois nem mais nem menos que os Vassilevich, os Mohamed, os Juanitos, os Van Minhs. Vós, como eles, amam, erram, acertam, odeiam, sangram e morrem. Vossos prédios, sob bombas, ruem.
Agora vocês sabem, da pior e mais cruel maneira possível, que a destruição de Kabul, de Belgrado, de Shatila, não é um simples vídeo game... Os vossos olhos enxergam o mesmo nada que a mãe palestina viu quando carregou o corpinho inerte de seu pequeno Mustafá. Bill, chorando a perda da tua mulher querida, estás irmanado ao camponês
A besta são eles. Mas também está em vós,
Escrito por às 12h52 [ ] [ envie esta mensagem ]